Tenho vindo a reparar que o assunto na ordem do dia é a exploração espacial… e as razões que levam o povo Português a alhear-se deste assunto e a ficar incompreensivelmente para trás na corrida ao espaço. Nunca enviámos uma nave para o espaço, e “astronauta português” é algo de que nunca se ouviu falar. Porquê? Temos os genes… fomos, e somos, os melhores navegadores do mundo. Partimos à aventura de novos continentes, sem medo, sem saber se eles estavam lá ou não.
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Alguns falam do governo. Outros falam de dinheiro. Outros ainda falam da falta dos dois. Por mim, estão todos enganados: nós não somos menos que os EUA ou a Rússia, a França ou a China. A razão pela qual a semente portuguesa ainda não saiu da Terra é unicamente semântica.
Em bom português, como é que se chamam aqueles objectos em forma de charuto que levam gasolina e astronautas e sobem para o espaço? Exactamente. É um “foguetão”. Foguetão. Pensemos um bocadinho nesta palavra, a epítome da tecnologia, algo que viaja pelo espaço sideral, em velocidade terminal, max Q, força g, etc. Chama-se foguetão. “Rocket”, em inglês. Foguetão, como se pode imaginar, deriva de foguete; com uma terminação aumentativa. Um foguete grande. Semanticamente, o que distingue um objecto que custa muito mais que muitas casas, que aguenta temperaturas inimagináveis, que leva pessoas e satélites para o espaço, que envolve dezenas de génios a trabalhar; de um utensílio muitas vezes caseiro, feito com uma cana, com um explosivo na ponta, que ou sobe e faz “pum” ou arranca os dedos de quem o mandou, é o ditongo “ão”. Não duvidem. Com esta atitude, nunca enviaremos nada que ultrapasse as copas de árvores altas.
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Mesmo quando, ou se, ultrapassarmos esta triste barreira semântica e finalmente enviarmos um foguetão para o espaço, não nos iludamos: ele não se vai chamar “Challenger”, ou “Apollo”, ou “Endeavour”, como os nomes épicos que uma nave espacial deve ter. Vai chamar-se “Dona Maria”. Vai chamar-se “O Viriato”. Vai chamar-se “Lolita”, ou “O Vingador”, ou mesmo “O Vira Tripas”. Vai ser baptizado com uma garrafa de verde como os Moliceiros ou os Rabelos ou outras embarcações. Terá a sua festaça, com uma chanfana de cabrito na véspera do lançamento. Portugueses irão gravar o seu nome no reactor com uma navalha. Não faltarão chalaças sobre o paralelo entre o foguetão e os foguetes que serão lançados: “Vamos lá a ver se não acontece ao grande o que acontece a estes, ah ah ah!”.
No dia seguinte, os astronautas levarão taparuéres com sardinhas de escabeche, bacalhau à Braz e rissóis de carne. Finalmente, se a garrafa de Faisão, ao partir-se na fuselagem, não parta também o vedante do depósito de combustível, o foguetão não explodirá em pleno vôo e largará a atmosfera terrestre, penetrando finalmente o cosmos.
Lá em cima, mais tarde, o astronauta puxará de um pastel de bacalhau e dirigir-se-á para a escotilha. Vai procurar Portugal lá em baixo. “Como é possível”, dirá ele quando o encontrar. “Somos mesmo pequeninos”.
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